© 2015 por Espaço Musical Nações.

Um início.

August 5, 2016

Bem me lembro daquele violão de meu avô: na capa de couro, brilhante e empoeirada em cima do guarda-roupa. Quando a gente tirava o "pinho" de dentro dela, ele estava intacto e com cheiro gostoso de talco. Dentro do instrumento um guizo de cascavel que meu próprio avó tinha extraído da danada.

E eu, sentado na cama, sem conseguir tocar os pés no chão, tomava ele em meu colo e dedilhava suas cordas afinadas pelos ouvidos do Vô Chico, que com ajuda da pequena "flautinha de metal", o diapasão, deixava ele tinindo de tão afinado. Ah, e não podia faltar a dedeira branca, pois era com ela que ele fazia a música acontecer.

Quando o primo Orestes ia lá em casa com a prima Lourdes, eles viviam conversando sobre o violão de sete bocas que meu avô tinha vendido. Pelo que me lembro, este só conheci por fotos. Pra acompanhar o cafezinho, o primo Orestes tocava a sanfona de meu pai, acompanhado pela Lourdes no pandeiro, pela Vó Nézia no ganzá e claro, pelo Vô Chico no violão. E, enquanto tocavam e cantavam "Mamãe eu quero", com um pouco de vergonha, eu, o menino caçula da família, dançava no meio da sala abraçado com minha fiel acompanhante: a japona vermelha. Certa vez minha irmã pediu que o Vô ensinasse ela tocar. Talvez pelo fato de ser canhota e o professor destro, não sei bem ao certo, mas foram poucos minutos para ela desistir. O que posso afirmar é que estes poucos instantes foram suficientes pra que eu dissesse umas das coisas mais bonitas de minha vida: "Vô, me ensina então?".

Sabe, para mim, nenhum artista é, até hoje, maior que meu avô. Tocou em circo, em rádio, na igreja e até compôs. Sua instrução deve ter sido na roça. Emocionou a muitos e fez a vida de muitos ficar melhor com sua verdade ao cantar e tocar.

E que valor tem tudo isso só sabe a família que pôde assim vivenciar. E aquela família que hoje pode se reunir com seus pais, primos e avós ao redor duma mesinha de café e, de maneira muito simples, cantarem juntos a alegria de estarem vivos e unidos, com segurança e no aconchego de seu lar, sem que saibam, são felizes. E, um dia, provavelmente dirão: eramos felizes e não sabíamos.

Please reload

Posts Em Destaque

Um início.

August 5, 2016

1/1
Please reload

Posts Recentes

August 5, 2016

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload